“A elevação do nível do mar é um multiplicador de ameaças”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, no Evento de Alto Nível da Assembleia Geral sobre a Elevação do Nível do Mar, em 24 de setembro.
A elevação do nível do mar está afundando futuros.
Meu relatório sobre a elevação do nível do mar revela a magnitude e a velocidade do perigo.
Em 2024, o nível global do mar subiu quase seis milímetros – o maior aumento anual já registrado. E o ritmo está se acelerando.
Os gases de efeito estufa – em sua grande maioria provenientes da queima de combustíveis fósseis – estão superaquecendo nosso planeta.
E o oceano está absorvendo esse calor – retendo cerca de noventa por cento dele.
O verão passado trouxe ondas de calor recordes, enquanto um El Niño cada vez mais forte está levando as temperaturas da superfície do mar a novos picos.
De acordo com o IPCC, mesmo no melhor dos cenários, projeta-se que o nível do mar suba até meio metro até o final do século.
Sem cortes drásticos nas emissões, essa elevação poderia chegar a um metro.
Enquanto isso, a Groenlândia e a Antártida Ocidental estão perdendo gelo mais rapidamente – correndo o risco de danos irreversíveis.
Excelências,
Cerca de 770 milhões de pessoas vivem a menos de cinco metros acima da linha da maré alta.
Sem medidas significativas de adaptação e mitigação, os riscos enfrentados pelas cidades e comunidades costeiras podem aumentar dez vezes até 2100.
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Aelevação do nível do mar é um multiplicador de ameaças – afetando gravemente as economias, o comércio, a infraestrutura e os sistemas alimentares;
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Apagando o patrimônio cultural e a identidade;
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Alimentando a instabilidade;
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E ameaçando a integridade territorial de algumas nações.
Quando a terra desaparece e a água doce se transforma em sal, surge a competição.
E corremos o risco de um êxodo em massa de populações inteiras.
Isso é injustiça climática: aqueles que menos contribuíram para causar essa crise pagam o preço mais alto.
Excelências,
Meu relatório aponta para ações em três frentes:
Primeiro – combater as causas fundamentais.
Qualquer ultrapassagem do limite de 1,5 grau deve ser a menor e mais breve possível.
As emissões globais devem atingir seu pico imediatamente e cair 60% até 2035.
Devemos triplicar a energia renovável, dobrar a eficiência energética, reduzir drasticamente as emissões de metano, interromper e reverter o desmatamento e abandonar os combustíveis fósseis – de forma rápida e justa.
O G20 deve liderar, e a COP31 na Turquia deve produzir resultados.
Segundo – devemos proteger as pessoas contra a elevação do nível do mar.
Incorporando a resiliência à elevação do nível do mar nos planos nacionais de adaptação, nos orçamentos de desenvolvimento, nas infraestruturas e nas decisões sobre o uso do solo;
E recorrendo à ciência, aos dados e ao conhecimento dos povos indígenas e das comunidades locais.
Hoje, 128 países relatam possuir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos.
Não podemos parar até que a cobertura alcance todas as pessoas na Terra.
E os governos devem planejar com antecedência e em conjunto com as pessoas – salvaguardando direitos e mantendo as comunidades unidas sempre que possível.
O financiamento deve estar à altura da crise.
A meta anual de US$ 300 bilhões para os países em desenvolvimento deve ser um passo rumo à mobilização de US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.
O financiamento para adaptação deve triplicar – como um primeiro passo para eliminar a lacuna no financiamento para adaptação.
E o Fundo Verde para o Clima e o Fundo para Resposta a Perdas e Danos devem receber recursos suficientes.
Em particular, estou muito frustrado com o montante, diria eu, ridículo que se encontra hoje no Fundo para Perdas e Danos.
Terceiro – sanar brechas jurídicas.
A Corte Internacional de Justiça e a Comissão de Direito Internacional afirmaram que a continuidade da condição de Estado é possível – mesmo que o território seja perdido.
Os Estados têm defendido que as zonas marítimas e as fronteiras sejam preservadas à medida que as linhas costeiras se deslocam.
Os direitos das pessoas não desaparecem só porque suas casas desaparecem.
E essas pessoas devem ser protegidas.
Precisamos de clareza jurídica consistente com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar – e a cooperação internacional é essencial para alcançar acordos que os Estados afetados e as comunidades locais merecem.
Elogio os Estados-membros por negociarem uma declaração abrangente da ONU sobre a elevação do nível do mar.
Esse marco deve agora ser traduzido em ação.
Devemos também avançar com base no progresso do Acordo sobre a Biodiversidade Marinha de Áreas Além da Jurisdição Nacional — ou BBNJ — que alcançou 100 Partes ontem.
Excelências,
A elevação do nível do mar é medida em milímetros.
Mas seu custo é medido em milhões de vidas destruídas, comunidades desalojadas e futuros roubados.
As pessoas que estão na linha de frente devem estar no centro de todas as decisões.
Não podemos permitir que países e culturas desapareçam sob as ondas – ou que as aspirações de bilhões de pessoas se percam na água.
O pedido de socorro foi lançado.
O mundo precisa responder.
Obrigado.
Para saber mais, acompanhe a cobertura da ONU News em português e visite a página especial da ONU Brasil sobre a 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.