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Meninas foram mais afetadas por fechamento de escolas, aponta UNESCO

13 outubro 2021

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) divulgou o estudo mundial Quando as escolas fecham, que expõe o impacto de gênero na aprendizagem, na saúde e no bem-estar durante o fechamento das escolas devido à COVID-19.

O relatório conclui que os impactos da interrupção das atividades educacionais presenciais foram maiores em meninas, que são mais afetadas pela exclusão digital e pelas demandas domésticas. Além disso, elas também retornaram às aulas em taxas menores e, em 15 países, relataram mais estresse, ansiedade e depressão do que os meninos.

O estudo inclui uma revisão de pesquisas publicadas e uma pesquisa em grande escala de organizações que trabalham em âmbito global com igualdade de gênero na educação, bem como dados detalhados coletados em comunidades locais de Bangladesh, Costa do Marfim, Mali, Paquistão e Quênia.

Legenda: O documento recomenda esforços contínuos para identificar e prevenir as práticas que privam as meninas de seu direito à educação e à saúde e reduzem suas perspectivas de longo prazo
Foto: © UNESCO

No dia 11 de outubro, por ocasião do Dia Internacional das Meninas de 2021, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) divulgou o estudo mundial When schools shut (Quando as escolas fecham), que expõe o impacto de gênero na aprendizagem, na saúde e no bem-estar durante o fechamento das escolas devido à COVID-19. O estudo conclui que, embora as normas e as expectativas de gênero possam afetar a capacidade de participar do ensino à distância, as intervenções que desafiam as barreiras de gênero podem limitar as perdas de aprendizagem e as taxas de evasão quando as escolas reabrem com segurança.

“Apesar da ação rápida dos governos e de seus parceiros para garantir a continuidade da aprendizagem, o fechamento de escolas devido à COVID-19 tem dificultado o exercício do direito de crianças e jovens à educação inclusiva e de qualidade em países de todo o mundo”, disse a diretora-geral adjunta de Educação da UNESCO, Stefania Giannini. “Os exemplos incluídos neste relatório nos lembram de que o caminho para a igualdade não é uma linha reta e que ações intencionais, sustentadas e colaborativas são necessárias para nos colocar no caminho certo e reconstruir de forma igualitária”.

O estudo inclui uma revisão de pesquisas publicadas e uma pesquisa em grande escala de organizações que trabalham em âmbito global com igualdade de gênero na educação, bem como dados detalhados coletados em comunidades locais de Bangladesh, Costa do Marfim, Mali, Paquistão e Quênia.

Quatro áreas principais nas quais foram observados impactos de gênero. Em primeiro lugar, as demandas domésticas sobre meninas e meninos, especialmente nos contextos mais pobres, restringiram sua capacidade de participar do ensino à distância. O tempo cada vez maior que as meninas passaram em casa muitas vezes acarretou um maior fardo de responsabilidades domésticas, como foi documentado em Bangladesh, Equador, Etiópia, Níger, Paquistão e Serra Leoa e em outros contextos de renda baixa e média. Frequentemente, a participação dos meninos era limitada pela necessidade de obter uma renda: um terço dos entrevistados em uma pesquisa realizada em 55 países indicou um aumento na ocorrência de trabalho infantil relacionado ao fechamento de escolas devido à COVID-19.

Em segundo lugar, a exclusão digital baseada em gênero restringiu de forma significativa a capacidade das meninas de aprenderem online. Em países com dados a esse respeito, as meninas adolescentes de 15 a 19 anos tinham uma probabilidade menor do que os meninos de ter usado a internet nos últimos 12 meses, e uma quantidade ainda menor delas possuía um telefone celular. Entre os estudantes entrevistados em três distritos do Paquistão, 44% das meninas, em comparação com 93% dos meninos, relataram possuir um telefone celular. As meninas que não possuíam telefones celulares relataram que dependiam dos aparelhos de seus familiares, normalmente os pertencentes a seus pais.

Além disso, os dados limitados disponíveis até o momento sobre as taxas de retorno às escolas também mostram disparidades de gênero. Um estudo realizado em quatro condados do Quênia descobriu que 16% das meninas e 8% dos meninos de 15 a 19 anos não conseguiram se matricular novamente durante os dois meses após a reabertura das escolas no início de 2021, e destacaram como principal motivo disso a incapacidade de pagar as taxas escolares.

Por último, além da educação, o fechamento das escolas afetou a saúde das crianças, principalmente sua saúde mental, seu bem-estar e sua proteção. Em 15 países, as meninas relataram mais estresse, ansiedade e depressão do que os meninos. Os estudantes LGBTQI relataram altos níveis de isolamento e ansiedade. Temores sobre o aumento dos crimes e da violência também foram relatados por meninos, especialmente em contextos afetados por crises.

À medida que os governos implementaram soluções de ensino à distância em escala mais ampla para responder à pandemia, a velocidade, não a equidade no acesso e nos resultados, parece ter sido a prioridade. As respostas iniciais à COVID-19 parecem ter sido desenvolvidas com pouca atenção à inclusão, o que aumenta o risco de uma maior marginalização. Há exceções: o plano de Gana reconhece as barreiras de gênero para a continuidade da educação durante o fechamento das escolas, enquanto Ruanda oferece o apoio a meninas grávidas e mães adolescentes para continuarem seus estudos.

A maioria dos países em todos os grupos de renda relatam fornecer aos professores diferentes formas de apoio. Contudo, poucos programas ajudaram os professores a reconhecer os riscos, as disparidades e as desigualdades de gênero que surgiram durante o fechamento das escolas devido à COVID-19. Espera-se também que as professoras assumam um papel duplo para garantir a continuidade da aprendizagem de seus estudantes, ao mesmo tempo em que enfrentam cuidados infantis adicionais e responsabilidades domésticas não remuneradas em suas casas durante o fechamento das escolas.

O estudo pede à comunidade educacional que considere o fator gênero nas políticas e nos programas para combater o declínio da participação e as baixas taxas de retorno à escola em comunidades vulneráveis, inclusive por meio de transferências de renda e de iniciativas de apoio específico para meninas grávidas e mães adolescentes. 

São necessários esforços contínuos para identificar tendências e ampliar as intervenções para pôr fim aos casamentos infantis, aos casamentos precoces e forçados, bem como às práticas que privam as meninas de seu direito à educação e à saúde e reduzem suas perspectivas de longo prazo. No entanto, em alguns contextos, a ocorrência desses casamentos parece estar aumentando. Também é necessário mais trabalho para documentar as boas práticas, especialmente aquelas que enfocam a equidade e que são pensadas para não deixar ninguém para trás.

O estudo também demonstra uma forte necessidade de soluções de ensino e aprendizagem remota com baixo uso de tecnologia ou sem nenhuma tecnologia, medidas para permitir que as escolas forneçam apoio psicossocial abrangente e monitorem a participação, por meio de dados desagregados por sexo, entre outras medidas necessárias.

O relatório When schools shut foi produzido sob a égide do Gender Flagship da Coalizão Global de Educação, com evidências coletadas pela ONG Population Council. Foi generosamente financiado pela Global Partnership for Education.

Meninas foram mais afetadas por fechamento de escolas, aponta UNESCO

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