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8 caminhos promissores para lidar com a crise climática

05 abril 2022

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) trouxe novos alertas importantes sobre a crise climática e a necessidade urgente de ação. De acordo com os dados, estamos fora da rota para evitar os efeitos mais devastadores do aquecimento global.

No entanto, nem todas as notícias do relatório são ruins. Os cientistas também apontaram ações que já estão em curso e caminhos que podem levar ao cumprimento da meta de 1,5°C.

Entre os destaques positivos, estão a redução dos custos de tecnologias de baixa emissão, as medidas econômicas e ações já implementadas por alguns países e a oportunidade de ação pelo clima nos centros urbanos.

Além de reduzir o aquecimento global, medidas como investimentos em infraestrutura para bicicletas e pedestres nas cidades, combinados com a implantação de micromobilidade elétrica, por exemplo, podem ainda trazer benefícios adicionais para a mobilidade urbana, a qualidade do ar das cidades e a saúde de seus habitantes.

manifestante segura cartaz em que se lê: Justiça climática agora
Legenda: Manifestante segura cartaz em que se lê: 'Justiça climática agora!'
Foto: © Markus Spiske/Unsplash

Embora mais uma vez a comunidade científica tenha deixado claro nesta semana que não estamos fazendo o suficiente para limitar o aquecimento global ao limiar crucial de 1,5°C, as conclusões do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não são todas pessimistas e sombrias.

O relatório, que reúne as evidências científicas disponíveis, também traz oito conclusões positivas, que apontam caminhos de ação promissores para a crise climática.

  1. Os veículos elétricos estão em ascensão

O uso de veículos elétricos está se acelerando em todo o mundo e, por serem movidos por eletricidade de baixo carbono, estão reduzindo as emissões de gases de efeito estufa do transporte terrestre.

De acordo com o cientista do IPCC Sudarmanto Budy Nugroho, os investimentos em infraestrutura de transporte ativo, combinados com a implantação de micromobilidade elétrica – por exemplo, e-scooters e e-bikes – podem apoiar ainda mais a redução das emissões de gases de efeito estufa.

“Isso também pode tornar a mobilidade mais acessível a todos, incluindo populações marginalizadas”, afirma o especialista.

O IPCC destaca que o biocombustível sustentável pode oferecer benefícios adicionais de mitigação no transporte terrestre, a curto e médio prazo.

Além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, muitas estratégias de mitigação no setor de transporte teriam vários outros benefícios, incluindo melhorias na qualidade do ar, benefícios para a saúde, acesso equitativo aos serviços de transporte, redução do congestionamento e redução da demanda de materiais.

  1. O custo de tecnologias de baixa emissão está em queda

De acordo com o relatório, os custos unitários de várias tecnologias de baixa emissão caíram continuamente desde 2010.

“O custo de tecnologias-chave, como veículos solares, eólicos e elétricos, caiu bastante. Isso pode nos ajudar a reduzir muito as emissões. Existem opções em todos os setores para reduzir as emissões pela metade, até 2030”, explica o autor Masahiro Sugiyama.

De 2010 a 2019, os custos de energia solar diminuíram 85%, energia eólica 55% e baterias de íons de lítio, 85%, graças a pacotes de políticas de inovação.

Os cientistas argumentam que as políticas personalizadas e abrangentes que abordam os sistemas de inovação ajudaram a superar os impactos distributivos, ambientais e sociais potencialmente associados à difusão global de tecnologias de baixa emissão.

  1. As Leis de Mitigação estão se expandindo

Os autores do relatório dizem, com grande confiança, que houve uma expansão “consistente” de políticas e leis que tratam da mitigação climática desde que o IPCC publicou seu Quinto Relatório de Avaliação (AR5), em 2014.

“Isso levou à prevenção de emissões que de outra forma teriam ocorrido e aumentou o investimento em tecnologias e infraestrutura (de baixo carbono)”, diz o relatório.

Até 2020, mais de 20% das emissões globais de gases de efeito estufa foram cobertas por impostos de carbono ou sistemas de comércio de emissões, embora a cobertura e os preços tenham sido insuficientes para alcançar reduções profundas.

Além disso, até 2020, 56 países tinham leis climáticas “diretas” focadas principalmente em reduções, o que cobria 53% das emissões globais. Em muitos países, as políticas melhoraram a eficiência energética, reduziram as taxas de desmatamento e aceleraram a implantação de tecnologia, levando a evitar – e em alguns casos reduzir ou remover – emissões. No entanto, os autores alertam que a cobertura política de emissões e o financiamento ainda são desiguais entre os setores.

Os cientistas também destacam como o Protocolo de Kyoto, que em 1997 comprometeu os países e economias industrializadas a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, levou à redução das emissões em alguns países e tem sido fundamental na construção de capacidade nacional e internacional para relatar e contabilizar as emissões.

Da mesma forma, o Acordo de Paris de 2015, com participação quase universal, levou ao desenvolvimento de políticas e definição de metas nos níveis nacional e subnacional, em particular em relação à mitigação, bem como maior transparência da ação e apoio climático.

“Embora muitas das políticas de descarbonização implementadas em todo o mundo tenham um impacto positivo na inovação, tecnologia, implantação e resultados ambientais, em alguns casos, elas também tiveram um impacto negativo de curto prazo em grupos vulneráveis, grupos de baixa renda e, em alguns casos, favoreceram, por exemplo, grandes empresas em detrimento de pequenas empresas. Também descobrimos que isso é algo que pode ser evitado projetando políticas de forma diferente ou implementando políticas complementares”, explica a especialista Laura Diaz Anadon.

  1. Ainda é possível alterar as emissões industriais

Os especialistas dizem que as emissões líquidas de carbono zero do setor industrial, embora desafiadoras em escala significativa, ainda são possíveis.

“Reduzir as emissões da indústria implicará uma ação coordenada em todas as cadeias de valor para promover todas as opções de mitigação, incluindo gerenciamento de demanda, eficiência energética e de materiais, fluxos circulares de materiais, bem como tecnologias de redução e mudanças transformacionais nos processos de produção”, explica o relatório.

Para avançar para o zero líquido, as indústrias podem aproveitar os novos processos de produção usando energias renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis e controle de gestão de carbono.

  1. As cidades apresentam uma grande oportunidade para a ação climática

O relatório destaca que as áreas urbanas oferecem oportunidades importantes para a mitigação do clima. “Todas as cidades podem contribuir para um futuro de zero líquido integrando setores, estratégias e inovações, sejam cidades estabelecidas, em crescimento ou emergentes. A forma como as áreas urbanas continuam a ser planejadas, suas interações com o sistema energético e as demandas de materiais determinam múltiplas oportunidades com benefícios para as pessoas e para o planeta”, explica o especialista Siir Kilkis.

Algumas medidas urbanas eficazes incluem mais áreas para pedestres ​​e maior penetração de energia renovável. “Tudo isso é possível enquanto as cidades melhoram a qualidade do ar, aumentam as oportunidades de emprego, expandem a infraestrutura urbana verde e azul e fornecem outros cobenefícios para o desenvolvimento sustentável em todo o mundo, bem como a adaptação climática”, acrescenta o autor do IPCC.

Segundo o IPCC, os esforços de mitigação nas cidades devem se concentrar em reduzir ou alterar o consumo de energia e material; eletrificação verde e aumentar a absorção e armazenamento de carbono no ambiente urbano.

Outro ponto de atuação tem a ver com o setor da construção. Em alguns cenários globais, os edifícios existentes podem ser adaptados e novos edifícios poder ser projetados para se aproximarem das emissões líquidas zero de gases de efeito estufa em 2050, se os pacotes de políticas, que combinam medidas ambiciosas de suficiência, eficiência e energia renovável, forem efetivamente implementados e as barreiras à descarbonização forem removidas.

“A ação de mitigação no setor de construção traz ganhos de saúde por meio da melhoria da qualidade do ar interno e do conforto térmico, além de reduzir o estresse financeiro em todas as regiões do mundo. No geral, a descarbonização do parque edificado contribui para o bem-estar humano”, destaca a autora Yamina Saheb.

  1. Medidas econômicas estão sendo implantadas

O relatório observa ainda que muitos instrumentos regulatórios e econômicos já foram implantados com sucesso. Segundo o documento, esses instrumentos podem apoiar reduções profundas de emissões e estimular a inovação se ampliados e aplicados de forma mais ampla.

“Pacotes para toda a economia, consistentes com as circunstâncias nacionais, podem atender a metas econômicas de curto prazo, reduzindo emissões e mudando caminhos de desenvolvimento para a sustentabilidade”, explicam os autores.

De acordo com os dados, o total de fluxos financeiros rastreados para mitigação e adaptação climática aumentou em até 60% entre 2013-14 e 2019-20, mas o crescimento médio desacelerou desde 2018.

Esses fluxos financeiros permaneceram fortemente focados na mitigação, são desiguais e se desenvolveram de forma heterogênea entre regiões e setores. No entanto, os autores observam que os instrumentos econômicos têm sido eficazes na redução de emissões, complementados por instrumentos regulatórios principalmente em nível nacional e também subnacional e regional.

O relatório destaca que, quando implementados, os instrumentos de precificação de carbono incentivaram medidas de redução de emissões de baixo custo. “Os impactos de equidade e distribuição de tais instrumentos de precificação de carbono podem ser abordados usando receitas de impostos de carbono ou comércio de emissões para apoiar famílias de baixa renda, entre outras abordagens”, sugerem os autores.

Eles destacam, com grande confiança, que a remoção dos subsídios aos combustíveis fósseis reduziria as emissões, melhoraria a receita pública e o desempenho macroeconômico e geraria outros benefícios ambientais e de desenvolvimento sustentável.

“A remoção do subsídio aos combustíveis fósseis é projetada por vários estudos para reduzir as emissões globais de CO2 entre 1 e 4% e as emissões de gases de efeito estufa em até 10% até 2030, variando entre as regiões”, diz o relatório.

  1. As pessoas se importam e estão engajadas

Os autores do IPCC reconhecem em sua avaliação que muitos cidadãos em todo o mundo se preocupam com a natureza e a proteção ambiental e estão motivados a se engajar em ações climáticas. “No entanto, eles podem enfrentar barreiras para agir, que podem ser removidas por ações, por exemplo, da indústria, de empresas e de governos”, explica a autora Linda Steg.

Segundo Steg, muitos governos estão atualmente lutando para saber se as pessoas realmente apoiarão algumas mudanças radicais. “Este relatório de avaliação mostra que a aceitação pública é maior quando custos e benefícios são distribuídos de forma justa e quando procedimentos de decisão justos e transparentes são seguidos”, destaca a especialista.

  1. A remoção de CO2 também é necessária

O relatório mostra que chegar a zero emissões líquidas de efeito estufa requer mais do que reduções de emissões e envolve uma opção chamada remoção de dióxido de carbono (CDR).

“Trata-se de remover o dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo em terra, no solo ou no oceano”, explica o autor Masahiro Sugiyama.

Os impactos, riscos e cobenefícios da implantação do CDR para ecossistemas, biodiversidade e pessoas serão altamente variáveis ​​dependendo do método, contexto específico do local, implementação e escala.

Reflorestamento, manejo florestal aprimorado, sequestro de carbono do solo, restauração de turfeiras e manejo de carbono azul são exemplos de métodos que podem melhorar a biodiversidade e as funções do ecossistema, o emprego e os meios de subsistência locais, dependendo do contexto.

Da mesma forma, a fertilização oceânica, se implementada, pode levar à redistribuição de nutrientes, reestruturação de ecossistemas, aumento do consumo de oxigênio e acidificação em águas mais profundas.

Além de reduções de emissões profundas, rápidas e sustentadas, a remoção de dióxido de carbono pode cumprir três funções complementares diferentes, globalmente ou em nível de país:

  • Reduzir as emissões líquidas de CO2 ou de efeito estufa no curto prazo.
  • Contrabalançar as emissões residuais “difíceis de reduzir” (por exemplo, emissões da agricultura, aviação, transporte marítimo, processos industriais) para ajudar a atingir zero líquido no médio prazo.
  • Alcançar emissões líquidas negativas de CO2 ou GEE a longo prazo, se implantadas em níveis superiores às emissões residuais anuais.

“Opções de mitigação baseadas em terra bem projetadas para remover o carbono também podem beneficiar a biodiversidade e os ecossistemas, nos ajudar a nos adaptar às mudanças climáticas, garantir meios de subsistência, melhorar a segurança alimentar e hídrica. As opções incluem proteger e restaurar ecossistemas naturais como florestas, turfeiras, pântanos, savanas e pastagens”, destaca a autora do IPCC Mercedes Bustamante.

Ainda há muito a ser feito – O relatório, no entanto, é claro ao reforçar que, a menos que os governos de todos os lugares reavaliem suas políticas energéticas, o progresso alcançado não será suficiente para manter nosso planeta fora de perigo. Segundo seus autores, a janela para a ação está se fechando e a hora para agir é agora.

O secretário-geral da ONU também descreve o cenário traçado pelo IPCC em uma mensagem de vídeo.

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