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Calor recorde causa recuo do gelo marinho e preocupa cientistas

20 abril 2022

O recente colapso de uma geleira de 1.100 km2 na Antártica surge em um momento de recordes de altas temperaturas e constitui um sintoma de um planeta que sofre uma crise climática, segundo especialistas.

A plataforma de gelo conhecida como Conger, que se separou do lado oriental da Antártica em março, é a nova vítima do aumento das temperaturas nos polos terrestres. Quanto mais as regiões polares se aquecerem, maior é a chance de derretimento, o que pode elevar o nível do mar e inundar comunidades costeiras.

Segundo especialista do PNUMA, Pascal Peduzzi, a concentração atual de gases de efeito estufa é maior que em qualquer outro momento da história humana.

Foto: © Angie Agostino/pexels

O recente colapso de uma geleira de 1.100 km2 na Antártica surge em um momento de recordes de altas temperaturas e constitui um sintoma de um planeta que sofre uma crise climática, segundo especialistas.

A plataforma de gelo conhecida como Conger, que se separou do lado oriental da Antártica em março, é a nova vítima do aumento das temperaturas nos polos terrestres. Especialistas dizem que quanto mais as regiões polares se aquecerem, maior é a chance de derretimento, o que pode elevar o nível do mar e inundar comunidades costeiras.

“A concentração atual de gases de efeito estufa é maior que em qualquer outro momento da história humana. É um sinal muito preocupante”, explicou o diretor do Banco de Dados de Informações de Recursos Globais (GRID-Genebra), parte da Divisão de Ciência do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Pascal Peduzzi.

A temperatura média na estação meteorológica Vostok, no centro da Antártica, em março, normalmente é de -53°C. Mas entre 16 e 20 de março deste ano, por volta da época em que supõe-se que a plataforma de gelo tenha despencado, a temperatura estava, em média, 35°C mais quente, atingindo um valor ameno para a Antártida de -18°C em 17 de março. A onda de calor é parte de uma tendência de aquecimento que está sendo observada globalmente.

As imagens de satélite de cinco décadas atrás mostram que o gelo marinho em ambos os polos está recuando. Em 21 de fevereiro de 2022, o gelo marinho antártico, até recentemente estável, atingiu seu menor volume desde o início das avaliações, em 1979.

A situação é muito mais dramática no lado oposto do planeta. Quarenta anos atrás, o gelo marinho no Ártico tinha normalmente de três a quatro metros de espessura. Hoje, está em torno de 1,5 metros, de acordo com o relatório Foresight Brief, uma publicação recente do PNUMA. Um gelo mais fino e uma maior abertura da água levam à maior absorção da luz solar e ao aumento do derretimento no verão. Desde 1979, cerca de 50% da cobertura de gelo marinho que permanece na época do verão foi perdida.

"Houve uma perda significativa de gelo marinho, especialmente nos últimos 20 anos", afirmou o diretor do Centro de Meio Ambiente e Sensoriamento Remoto de Nansen e co-autor do Foresights Brief, Tore Furevik. “A perda de gelo marinho indica um clima que está ficando cada vez mais quente e não está em equilíbrio. A única maneira de deter essa tendência é reduzindo as emissões de gases de efeito estufa”.

O derretimento do gelo marinho provoca mudanças no ecossistema marinho, na circulação oceânica e em eventos climáticos. Tanto no Ártico quanto na Antártida, o aquecimento da água do oceano contribui para o derretimento das camadas de gelo. Enquanto o derretimento do Ártico não leva a um aumento significativo do nível do mar, pois o gelo já está na água, o derretimento do gelo da Groenlândia ou da Antártida acontecerá enquanto ele estiver em terra.

A chave para conter o derretimento do gelo marinho e das camadas de gelo é a mitigação da mudança climática e a limitação dos aumentos de temperatura de acordo com o Acordo de Paris. Como parte do pacto, os Estados-membros se comprometeram a limitar o aquecimento global em até 2°C, e de preferência abaixo de 1,5°C, em comparação com os níveis pré-industriais. Se o mundo cumprir suas promessas atuais relacionadas ao clima, o planeta ainda aquecerá pelo menos 2,7°C até o final do século, adverte o Relatório sobre a Lacuna de Emissões do PNUMA.

Já o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indica que a média de aquecimento global será de 3,2°C até 2100.  

“Precisamos levar a crise climática mais a sério. Temos menos de oito anos para reduzir nossas emissões pela metade. Isso não vai acontecer sem uma grande reconfiguração dos principais setores”, defendeu o diretor do GRID-Genebra.

O PNUMA propôs a chamada Solução de Seis Setores para a crise climática. Essa abordagem tem como foco reduzir as emissões de gases de efeito estufa seis em segmentos: energia, indústrias, agricultura e alimentos, florestas e uso da terra, transportes, construção e cidades. O relatório descreve como esses seis setores conseguem reduzir mais de 30Gt de emissões e, com isso, ajudam a manter o aumento da temperatura em conformidade com o Acordo de Paris.

As Nações Unidas também lançaram a campanha ActNow, que orienta as pessoas sobre as escolhas individuais que podem fazer para limitar o aquecimento global e reduzir a mudança climática.  

Em março de 2022, o PNUMA lançou uma versão atualizada de sua plataforma de dados, informações e conhecimentos chamada World Environment Situation Room, disponível em inglês. Há um módulo dedicado à mudança climática, que inclui gráficos atualizados diariamente sobre a extensão do Ártico e do gelo marinho antártico. A página também destaca anomalias térmicas e tem uma grande quantidade de dados que explicam e monitoram a mudança climática.

Neste mês, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que "estamos em uma via rápida para o desastre climático".

O diretor do GRID-Genebra afirmou que existe uma indiferença diante da mudança climática, pois muitas vezes as pessoas não se dão conta do enorme impacto que cada grau de aquecimento pode ter sobre o planeta. O especialista revela que: “A 1,5 °C, a elevação do nível do mar limita-se a 48 cm. A 3 °C, o nível do mar aumentaria sete metros e os ecossistemas marinhos poderiam entrar em colapso. A 4°C, os especialistas não sabem como a adaptação seria possível".

Entidades da ONU envolvidas nesta atividade

PNUMA
Programa das nações Unidas para o Meio Ambiente

Objetivos que apoiamos através desta iniciativa