Na Ilha do Marajó, uma comunidade se adapta a um litoral em transformação
A vida na Vila do Pesqueiro, no Pará, se tornou mais difícil com o avanço das marés e da erosão.
Por mais de 40 anos, Ivanil viveu em uma casa sob palafitas, a apenas 20 metros da margem da água, na mesma comunidade em que nasceu. Lá, ela e o marido pescavam, plantavam e criavam animais. “Eu era uma pessoa muito feliz naquele pedacinho de terra - aquele era o meu paraíso”, diz.
Até que veio a noite que mudou tudo. A chuva chegou com trovões e raios que cortaram a escuridão, sacudindo as pequenas casas ao longo da costa de Soure, cidade na Ilha de Marajó, no estado do Pará, onde o Rio Amazonas encontra o Oceano Atlântico no Norte do Brasil.
Na Vila do Pesqueiro, uma comunidade tradicional de 160 famílias, que enfrenta marés cada vez mais fortes e a erosão costeira, moradores se uniram para se proteger e salvar o que era possível durante a tempestade que mudou suas vidas. Quase dois anos depois, a lembrança ainda é forte para Ivanil – cada som, cada relâmpago é um lembrete do quão perto o mar chegou.
Quando a maré invadiu a comunidade, em fevereiro de 2024, as casas da vizinhança que estava ali próxima ao canal por gerações foram levadas pelas águas fortes. Ivanil e os moradores ao lado tiveram que se deslocar para um local mais longe da costa. E mesmo a distância sendo pequena, menos de um quilômetro, a mudança sentida foi imensa para quem era acostumado a viver ao ritmo das marés.
“Mesmo sem ter ido muito longe, parece um mundo completamente diferente”, explica Ivanil. “Aqui é uma área de mangue, mais quente, com mais barulho e sem a possibilidade de criar animais nem plantar”.
Para muitos moradores, as mudanças são profundamente pessoais. Ao lado de Ivanil, agora mora seu filho, Jhonny, pescador e estudante universitário que havia acabado de ser aprovado no vestibular para o curso de Biologia quando a maré atingiu a comunidade. Ele cresceu observando o mar mudar ano após ano, com marés mais fortes e uma erosão cada vez mais rápida redesenhando o litoral que ele conhecia.
Jhonny lembra que a cada estação a água chegava um pouco mais perto, até o dia que alcançou a casa deles.
“O lugar onde nossas casas ficavam agora está debaixo d’água”, diz ele.
Ele pensa com frequência nas famílias que ainda vivem às margens do canal, sabendo que marés ainda mais fortes são esperadas para o próximo ano. “Para mim, mudar não é apenas uma questão de segurança”, afirma. “É sobre proteger o lugar e as pessoas que moldaram minha vida.”
Entre as poucas famílias que ainda vivem à beira do canal estão Benedito e Maria, que se estabeleceram ali há 22 anos, quando Benedito retornou de Belém após ter ido como jovem alistado no exército.
Quando a maré veio, levou tudo pelo caminho. Árvores foram arrancadas e até estruturas de concreto desapareceram, deixando apenas vestígios do que antes existia.
Hoje, a casa de Benedito fica na beira do canal, em um ponto que antes parecia seguro e distante da água. Benedito é pescador, e permanecer perto da margem permite que ele leia as marés e saiba o momento certo de sair com o barco, mas ele já pensa em recuar a casa em alguns metros no próximo ano.
“Estamos sentimos o pátio da casa mexer com as marés”, diz ele. “E ainda nem é a época das marés mais fortes”.
No outro lado da faixa de areia fica a Praia do Pesqueiro, um destino turístico popular e outra fonte de renda para a comunidade. Lá, Enir trabalha há 29 anos e é dona de um pequeno restaurante.
“Isso aqui já foi uma praia linda”, conta ela. “Também tínhamos árvores frutíferas, mas a maré levou todas.”
Para Enir, as mudanças se tornaram impossíveis de ignorar. “A maré continua avançando”, diz. “Cinco anos atrás, tudo isso era areia. Agora, é difícil até de pisar na água sem se afundar na lama.”
O impacto econômico tem sido forte. Cada vez que a água sobe, leva algo junto, uma parede, uma cerca, uma vida inteira de trabalho. As pessoas tentam reconstruir com o pouco que têm, mas o processo de reconstrução nunca termina. Algumas famílias desistiram, seus restaurantes e barracas de praias agora são apenas lembranças. A madeira, que serve de base para as casas, é cara, o que torna difícil a reconstrução.
O que antes seguia um ritmo sazonal, se tornou imprevisível. As marés e correntes dos rios se intensificaram. A chuva e o vento já não seguem mais padrões conhecidos e rios locais agora correm com mais força, desgastando a costa. A cada tempestade, a paisagem muda, sendo um lembrete de como a mudança do clima está redesenhando um litoral que as comunidades cuidam e habitam há gerações.
A Vila do Pesqueiro está na Reserva Extrativista (Resex) Marinha de Soure, uma área protegida administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental (ICMBio). As Resex são unidades de conservação federais criadas para assegurar os meios de vida e cultura das populações tradicionais, promovendo o uso sustentável dos recursos naturais.
A pesca continua como a principal atividade de fonte de renda da comunidade, enquanto a gastronomia local e turismo em pequena escala ajudam famílias a se manterem. Mas, com o avanço das marés, essa dinâmica se tornou mais frágil.
Dentre as ações de redução de riscos realizadas pela gestão da reserva está a parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA) para fortalecer o monitoramento climático e da biodiversidade. Esses esforços também ajudaram a criar a Defesa Civil Municipal em 2024.
“As medidas de contenção que a comunidade está realizando, com uma criatividade incrível e pouquíssimos recursos, vieram das orientações do grupo de Oceanografia criado junto com a UFPA”, explica Lisângela Cassiano, gestora da Reserva de Soure.
Para Patrícia, liderança comunitária que também precisou afastar sua casa do canal, a união se tornou essencial para sobreviver. Ela acredita que o turismo pode ajudar na recuperação da cidade, desde que seja conduzido pelas famílias locais, para que os benefícios permaneçam dentro da vila.
“Nossas histórias sempre foram passadas de geração em geração”, ela explica.
“Essa é o nosso lar – nossa ancestralidade. Queremos ficar aqui, para proteger o que nossas famílias construíram. Enquanto estivermos, juntos, não iremos desistir.”
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