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Sede de aprender

10 maio 2010

Vice-Secretária-Geral das Nações Unidas, Asha-Rose Migiro, durante a décima sexta comemoração do Dia Internacional de Reflexão sobre o Genocídio no Ruanda em 1994, realizada na sede da ONU em Nova York em abril de 2010. Foto: UN/Paulo Filgueiras.Asha-Rose Migiro (*)

Raras são as pessoas que têm um trabalho como o meu, no qual podem conversar, em poucas horas, com um presidente e com uma mãe desabrigada. E os dois me disseram o mesmo.

Três meses depois do terremoto que devastou o Haiti, o presidente Préval me recebeu em seu escritório em Porto Príncipe -um modesto prédio nos jardins ao fundo do palácio presidencial em ruínas.

A educação -disse ele no logo no começo da conversa- deve ser a pedra angular do esforço internacional de reconstrução do Haiti. Sem educação, não há futuro.

Pouco depois, visitei uma "cidade de tendas", repleta de milhares de famílias deslocadas. Uma mãe empurrou seu filho, de não mais de oito anos, em minha direção. "Ele quer aprender", disse, com calma determinação. "Dê-lhe uma oportunidade."

Duas pessoas ocupando duas posições bem diferentes na vida. No entanto, cada uma me deu uma mensagem que ouvi muitas vezes durante minha estadia. Os haitianos precisam de e querem nossa ajuda. Mas, quando se trata da reconstrução do Haiti, eles querem fazê-la. E a reconstrução começa pela escola.

A escola é a via que conduz a um trabalho digno, principalmente nesse país, onde a taxa de desemprego é elevada e os empregos são raros. A isso se soma uma realidade mais imediata.

Após a catástrofe, a escola faz mais do que ensinar. Dá às crianças a impressão da volta à normalidade no meio do caos. É um local de paz e refúgio. E, sobretudo, oferece esperança no futuro.

Quando as pessoas vivem à beira do desespero -sem alimentos, medicamentos, abrigo-, isso é mais importante do que nunca. Foi por isso que a missão das Nações Unidas no Haiti, em colaboração com o governo e as organizações humanitárias, se esforçou para reabrir as escolas o mais rápido possível.

Mães e crianças são especialmente vulneráveis. Ao passar uma tarde num campo e ter participado, poucas horas depois, de uma patrulha noturna, compreendo melhor seus medos. Quando começa a chover, a lama invade tudo. E nas esquinas escuras se escondem a violência e o estupro.

O principal objetivo de minha visita ao Haiti era ver de perto a situação e a nossa resposta. Mas, nesse momento em que nossas atenções se voltam para as ações em longo prazo, voltei com uma noção clara do que é necessário: autossuficiência. Mais uma vez, foram os haitianos que me deram a resposta. "Nada de esmolas", gritou, extravasando sua frustração, um grupo de jovens desempregados em Leogane, o epicentro do terremoto, quando visitei o acampamento.

Suas famílias tinham perdido quase tudo, mas seu orgulho continuava intacto. "Nos deem escolas! Depois, vamos cuidar do resto!" É um desafio assustador. Mesmo antes do terremoto, a taxa de analfabetismo era uma das mais altas do hemisfério e a taxa de escolaridade era muito baixa. Dois em cada cinco adultos não sabiam ler e menos da metade das crianças ia às aulas. O governo haitiano quase não tem controle dessa situação.

A maioria das escolas são particulares. Só entre 10% e 15% são do Estado. Em última instância, o Haiti só poderá se desenvolver na medida em que o ajudemos a educar as suas crianças. E ninguém está mais ciente disso do que os próprios haitianos.

Compreendo bem isso. Onde nasci, na Tanzânia, nosso presidente fundador era designado pelo título mais honroso que se podia dar: "Mwalimu", "Professor". O presidente Julius "Mwalimu" Nyerere defendia que a educação para as meninas e meninos era fundamental, e foi essa afirmação da igualdade dos sexos que me permitiu ter este cargo.

A ONU deve lançar, com o governo haitiano e outros parceiros, um movimento pela educação. Seu objetivo: matricular todas as crianças e adolescentes nas escolas. O Haiti precisa de nossa solidariedade. Isso significa muitas coisas: materiais de construção, clínicas, medicamentos, alimentos e combustíveis. Mas significa também coisas que transcendem o imediato e que são o material de que é feito o futuro.

Livros, professores e educação devem estar entre eles, como o presidente Préval e muitas mães me disseram. Eles são a chave para uma vida e um futuro melhor. As pessoas maravilhosas do Haiti merecem.

Asha-Rose Migiro, Vice-Secretária-Geral das Nações Unidas. Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo (caderno Opinião) no dia 09/05/2010.

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