Guterres: mundo está “completamente fora do caminho” para cumprir os ODS até 2030
14 julho 2021
- O secretário-geral da ONU alertou que o mundo está "fora do caminho" para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030.
- A declaração foi feita após divulgação de novos dados sobre insegurança alimentar no mundo, que indicam que 161 milhões a mais de pessoas enfrentaram a fome em 2020.
- António Guterres reforçou a importância da Cúpula sobre Sistemas Alimentares, que a ONU vai organizar em setembro, como uma oportunidade para rever a forma como nos relacionamos com a alimentação e o planeta.
- Para o chefe da ONU, o evento é uma oportunidade de abordar temas interligados e urgentes, como a fome, a emergência climática, a desigualdade e os conflitos.
Após divulgação de novo relatório sobre insegurança alimentar, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou na segunda-feira (12) que o mundo está “completamente fora do caminho” para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030.
Os "novos e trágicos" dados indicam entre 720 e 811 milhões de pessoas no mundo enfrentaram a fome em 2020. Isto representa cerca de 161 milhões a mais do que em 2019.
“Os altos custos, aliados a níveis persistentemente elevados de pobreza e desigualdade de renda, continuam a manter dietas saudáveis fora do alcance de cerca de três bilhões de pessoas, em todas as regiões do mundo”, afirmou Guterres, em comunicado que destaca a importância da Cúpula Global de Sistemas Alimentares, prevista para setembro.
Múltiplos gatilhos - Embora a fome esteja aumentando há vários anos, o chefe da ONU destacou que, em 2021, “não estamos oferecendo o que é um direito fundamental para as pessoas em todo o mundo”.
A COVID-19 não apenas piorou as coisas, como também reforçou as ligações entre desigualdade, pobreza, alimentação e doenças.
Apesar de um aumento de 300% na produção global de alimentos desde meados da década de 1960, a desnutrição é ainda o principal fator que contribui para a redução da expectativa de vida.
Guterres citou as mudanças climáticas como "um fator e uma consequência da fome", acrescentando que nossa "guerra com a natureza" inclui um sistema alimentar que gera um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa e também é responsável por até 80% da perda de biodiversidade. A fome também impulsiona conflitos em todo mundo.
Sem desculpas - Conforme reconhecido na Agenda 2030, a fome e a desnutrição estão interligadas e devem ser abordadas em conjunto com outros desafios globais.
“É hora de cumprir nossa promessa”, afirmou Guterres.
O secretário-geral considera "inaceitável" que, em um mundo de fartura, bilhões de pessoas não tenham acesso a dietas saudáveis.
Ele ainda alertou que o tempo está se esgotando para fazer “as mudanças urgentes” necessárias para limitar o aumento da temperatura global.
Cúpula de Sistemas Alimentares - Antes de dar início à Cúpula durante a abertura da Assembleia Geral em setembro, o chefe da ONU convocará uma pré-Cúpula em Roma no final deste mês para descobrir como lidar com a fome, a emergência climática, a desigualdade e o conflito - todos elementos necessários para transformar urgentemente os sistemas alimentares globais.
“Ouvimos milhares de vozes em todo o mundo e ideias de mulheres, povos indígenas e jovens que são o futuro de nossos sistemas alimentares”, disse Guterres, referindo-se aos diálogos nacionais que antecederam a Cúpula.
Essas ideias sobre “transições verdes” para promover trabalho decente, melhorar o acesso à tecnologia e redefinir a relação da humanidade com o planeta serão apresentadas a na Cúpula.
Relação com os alimentos - O secretário-geral também destacou o fator cultural da alimentação. Ao mesmo tempo que sustenta bilhões de empregos, a comida também aproxima famílias e comunidades.
“Nossa relação com os alimentos é uma parte fundamental de todos os aspectos da vida na Terra”, definiu Guterres, ao destacar as “profundas” relações sociais, ambientais e econômicas dos sistemas alimentares.
Para ele, mudanças nos sistemas alimentares não apenas limitariam os impactos da pandemia, como também tornariam o mundo mais seguro, justo e sustentável, como prevê a Agenda 2030.
“É um dos investimentos mais inteligentes - e mais necessários que podemos fazer”, disse Guterres.