80º aniversário das Nações Unidas
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na reunião de alto nível da Assembleia Geral sobre o 80º aniversário das Nações Unidas, em 22 de setembro
Ao celebrarmos o 80º aniversário das Nações Unidas, convido-os a regressarem por um momento aos nossos primeiros dias.
Quando a Organização abriu suas portas pela primeira vez, muitos de seus funcionários carregavam feridas visíveis da guerra — um mancar, uma cicatriz, uma queimadura.
Um deles era o major Brian Urquhart, a segunda pessoa a ser contratada pela ONU.
Soldado britânico durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi atingido por uma explosão em um navio no Canal da Mancha;
Testemunhou a libertação do campo de concentração de Bergen-Belsen;
E carregou, pelo resto da vida, o mancar causado por um paraquedas que não abriu.
Ele não estava sozinho.
Um funcionário poderia mencionar discretamente um ferimento de bala.
Um delegado, o estilhaço de granada ainda alojado em seu peito.
Eles tinham visto o pior da humanidade — os horrores dos campos de extermínio, a crueldade do combate, cidades totalmente destruídas.
E foi precisamente por causa do que testemunharam que escolheram servir à paz.
Excelências,
Existe um mito persistente de que a paz é ingênua. Que a justiça é sentimental. Que a única política “real” é a política do poder e do interesse próprio.
Mas aqueles primeiros funcionários não eram idealistas alheios à realidade.
Eles tinham visto a guerra. E sabiam:
A paz é a busca mais corajosa, mais prática e mais necessária de todas.
Ao construir as Nações Unidas, eles criaram algo extraordinário.
Um lugar onde todas as nações — grandes e pequenas — poderiam se reunir para resolver problemas que nenhum país poderia resolver sozinho.
No entanto, neste momento, os princípios das Nações Unidas estão sob ataque como nunca antes.
Enquanto nos reunimos, civis são alvos e o direito internacional é pisoteado em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e em outros lugares.
Enquanto nos reunimos, a pobreza e a fome aumentam, enquanto o progresso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável patina.
Enquanto nos reunimos, o planeta queima, com incêndios, inundações e calor recorde causados pelo caos climático.
Ao mesmo tempo, estamos caminhando para um mundo multipolar.
Mas, sem instituições multilaterais fortes, a multipolaridade tem seus riscos — como a Europa aprendeu na Primeira Guerra Mundial.
Para enfrentar esses desafios, não devemos apenas defender as Nações Unidas, devemos fortalecê-las.
Esse é o objetivo da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, do Pacto para o Futuro e da iniciativa ONU80: renovar os fundamentos da cooperação internacional e garantir que possamos atender às pessoas em todos os lugares.
Excelências,
Ao longo dos anos, nossa Organização liderou alguns dos maiores triunfos da humanidade:
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A erradicação da varíola.
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A recuperação da camada de ozônio.
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E, acima de tudo, a prevenção de uma terceira guerra mundial.
Os desafios dos próximos 80 anos serão familiares e novos.
A batalha contra a guerra e a pobreza continuará.
Mas também contra o caos climático, as tecnologias descontroladas, a militarização do espaço e as crises que ainda não podemos imaginar.
Para enfrentar os desafios, vamos nos lembrar do que nossos fundadores sabiam:
O único caminho a seguir é juntos.
Vamos enfrentar este momento com clareza, coragem e convicção.
E vamos realizar a promessa da paz.
Obrigado.
Para saber mais, siga @nacoesunidas e @onubrasil nas redes e visite a página especial da ONU Brasil sobre os 80 anos das Nações Unidas.