Guterres: “Precisamos de um compromisso renovado com a cooperação — em um mundo verdadeiramente interconectado e multipolar”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, na cerimônia de transferência da Presidência do Grupo dos 77 e China (G77 + China) para o Uruguai.
Excelências, ilustres representantes,
É uma honra estar hoje aqui com vocês.
Elogio o Iraque por sua liderança do Grupo dos 77 e China ao longo do último ano.
Gostaria também de agradecer ao Iraque pela calorosa recepção durante minha visita no mês passado e pelo encerramento muito bem-sucedido da UNAMI, graças ao compromisso do governo e do povo do Iraque.
E parabenizo o Uruguai por assumir a Presidência em 2026. Sou um grande admirador do Uruguai. O Uruguai é o primeiro Estado de bem-estar social do mundo. A justiça social está no DNA do Uruguai desde o seu início, e o Uruguai tem sido um símbolo de paz e justiça. Por isso, diria que está em excelentes condições para presidir o Grupo dos 77 na nossa luta pela paz, pelo desenvolvimento sustentável e pelos direitos humanos, áreas em que o Uruguai tem sido um símbolo muito positivo para todos nós.
Excelências,
Este Grupo nasceu de uma profunda demanda que ainda hoje ecoa:
Desenvolvimento com dignidade.
Uma parcela justa de oportunidades.
E assentos nas mesas onde as decisões são tomadas.
Mais de seis décadas depois, este grupo é um forte pilar do multilateralismo.
E sua missão é tão urgente como sempre.
Começamos este ano em meio a conflitos violentos, desigualdades crescentes, aumento do endividamento e erosão da confiança.
Vemos o caos climático — temperaturas recordes, inundações e secas devastadoras — destruindo vidas e meios de subsistência e revertendo os ganhos de desenvolvimento conquistados com tanto esforço.
Vemos as tecnologias avançando mais rapidamente do que nossa capacidade de garantir que elas sirvam a todas as pessoas — e a todos os países — em vez de apenas a alguns privilegiados.
E vemos a cooperação internacional sob pressão — mesmo que os desafios globais continuem provando uma verdade: nenhum país pode resolvê-los sozinho.
É por isso que o multilateralismo é importante.
É por isso que precisamos de um compromisso renovado com a cooperação — em um mundo verdadeiramente interconectado e multipolar.
E é por isso que o Grupo dos 77 e China continuam sendo indispensáveis.
Em um momento em que alguns questionam o valor da cooperação, vocês continuam mostrando o que a cooperação pode alcançar.
Repetidamente, vocês demonstraram unidade e força.
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Da Conferência sobre os Oceanos em Nice à Conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento em Sevilha;
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Da Conferência de Awaza sobre Países em Desenvolvimento Sem Litoral à Cúpula Social de Doha – vocês ajudaram a mobilizar o mundo em torno da promessa da Agenda 2030.
Sua unidade é uma força para a equidade.
Uma força para a ação.
E uma força para a justiça, para reformular um sistema que ainda muitas vezes trata injustamente os países em desenvolvimento – em termos de finanças, clima, tecnologia e representação.
Excelências,
Em primeiro lugar, devemos nos comprometer com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Estamos a apenas quatro anos de 2030 – e o déficit de financiamento continua enorme, enquanto o serviço da dívida sufoca os investimentos em saúde, educação, empregos, energia e resiliência.
Precisamos de um sistema financeiro global que reflita as realidades atuais – não o mundo de 1945, antes de muitos de vocês conquistarem a independência do domínio colonial.
Este é o objetivo do Compromisso de Sevilha: transformar a arquitetura financeira internacional – triplicando o poder de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento, alavancando muito mais capital privado e ampliando o financiamento acessível e de longo prazo onde ele é mais necessário.
Precisamos de ações mais rápidas e inteligentes em relação ao endividamento excessivo, com novos instrumentos que aliviem o peso da dívida e acelerem o apoio antes que as crises se agravem.
Precisamos de reformas para dar aos países em desenvolvimento maior participação e influência nas instituições financeiras internacionais e para lidar com as classificações de crédito, que muitas vezes são arbitrárias e desatualizadas e podem custar bilhões aos países por meio de custos de empréstimos mais altos.
Em segundo lugar, devemos enfrentar a emergência climática com a rapidez e a escala que ela exige, tendo a justiça climática como foco central.
O mundo está caminhando para um aumento temporário acima de 1,5 °C.
Nossa tarefa é tornar esse aumento o menor, o mais curto e o mais seguro possível.
Isso requer cortes profundos e imediatos nas emissões nesta década.
Os novos planos climáticos nacionais devem ser o piso para a ambição, não o teto — apoiados por meios para exceder esses compromissos.
O princípio de responsabilidades comuns, mas diferenciadas, deve ser aplicado — mas todos os países devem fazer mais.
Devemos acelerar uma transição justa, ordenada e equitativa para longe dos combustíveis fósseis – e construir mais rapidamente um futuro com energia limpa;
Devemos combater o metano – uma das formas mais rápidas e baratas de reduzir o aquecimento a curto prazo;
E devemos reforçar a adaptação e a resiliência, porque os impactos já estão garantidos – e porque a justiça assim o exige.
Os sistemas de alerta precoce e as infraestruturas resilientes salvam vidas – e compensam muitas vezes o seu custo.
A justiça climática exige a proteção das pessoas que menos contribuíram para causar esta crise – e que enfrentam as consequências mais graves.
Exige financiamento em grande escala.
Os países desenvolvidos devem liderar a resposta ao apelo da COP30 para triplicar o financiamento da adaptação até 2035 – como um primeiro passo para colmatar o fosso da adaptação.
Também precisamos de um aumento nas contribuições para o Fundo de Perdas e Danos.
E devemos traçar um caminho confiável para mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para os países em desenvolvimento – com financiamento acessível, previsível e em grande escala.
Em terceiro lugar, devemos garantir que a era digital se torne um motor de inclusão – e não um acelerador da desigualdade.
O Pacto Digital Global criou a primeira estrutura universal para a cooperação em tecnologias digitais, incluindo inteligência artificial.
Agora, precisamos passar dos acordos à ação.
É por isso que estamos rapidamente colocando em operação o Painel Científico Independente sobre IA, para que a ciência possa orientar as políticas – e os fatos possam superar o medo.
E é por isso que estamos convocando o Diálogo Global sobre Governança da IA, reunindo todos os países – e partes interessadas – para uma conversa, dentro das Nações Unidas.
A seleção dos membros do Painel está quase concluída.
Ele será representativo de todas as regiões do mundo, com especialistas em diversas disciplinas.
O Painel começará seu trabalho em breve e publicará seu primeiro relatório antes do Diálogo Global, em julho.
Também devemos reduzir a desigualdade em termos de poder computacional, dados, pesquisa, habilidades e padrões de segurança.
Mais de 80 países carecem de capacidade básica para projetar, construir ou implantar sistemas de IA.
É por isso que solicitei a criação de um Fundo Global para o Desenvolvimento de Capacidades em IA:
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Para garantir que todos os países possam se beneficiar da IA e ajudar a definir suas diretrizes;
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E investir em infraestrutura pública digital – construindo uma economia digital mais equitativa para todas as pessoas.
Saúdo a liderança demonstrada por vários membros do G77 ao integrar seus centros de pesquisa à Rede Global para Intercâmbio e Cooperação em Capacitação em IA.
A tecnologia deve ampliar as oportunidades, não as divisões.
Deve promover os direitos humanos, não prejudicá-los.
Excelências,
Em quarto lugar, precisamos fortalecer as Nações Unidas.
Em um momento de expectativas crescentes, nossa Organização deve estar à altura do momento.
Este é o objetivo da Iniciativa ONU80:
Construir um sistema da ONU que funcione de forma mais eficaz e equitativa, mesmo com a redução contínua dos recursos.
Uma Organização das Nações Unidas mais ágil onde precisamos estar e mais forte onde as pessoas mais precisam de nós.
Este trabalho avançará com transparência e parceria – com vocês, os Estados-membros e, particularmente, os países em desenvolvimento.
Excelências,
Em todas estas áreas, a escolha essencial é clara:
Fragmentação – ou soluções.
Divisão – ou resultados.
Interesses próprios estreitos – ou uma determinação comum de construir um futuro mais justo.
O Grupo dos 77 e China têm sido, há muito tempo, guardiões dessa determinação.
Podem contar comigo para continuar ao lado de vocês.
Para pressionar por justiça e equidade.
Para defender a cooperação e a solidariedade internacionais.
E para garantir que as promessas feitas aos países em desenvolvimento sejam cumpridas.
Obrigado.
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