“O Pacto para o Futuro e a ONU80 são componentes interligados de uma única estratégia de renovação”
Discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, em sessão plenária da Assembleia Geral sobre a implementação do Pacto do Futuro, em 24 de abril de 2026.
Agradeço à presidente da Assembleia Geral por convocar a discussão de hoje.
Esta é a primeira de várias reuniões informais que ela está organizando sobre a implementação do Pacto para o Futuro.
E ocorre em meio a uma série de reuniões informativas mensais sobre os pacotes de trabalho da ONU80.
Hoje nos concentramos em como essas duas iniciativas se encaixam e se reforçam mutuamente.
Em sua essência, ambas tratam da restauração da confiança — por meio de ações concretas, reformas significativas e resultados que as pessoas possam ver, sentir e nos quais possam acreditar.
Como todos sabemos muito bem, a confiança está perigosamente escassa em todo o mundo:
- Vemos uma fragmentação acentuada e uma polarização profunda.
- Conflitos causando níveis horríveis de morte e destruição.
- Comunidades privadas de recursos para o desenvolvimento e a resiliência.
- Esforços para adiar as ações climáticas e negar a justiça climática.
- E uma corrida frenética para desenvolver novas tecnologias sem limites de segurança.
O Pacto para o Futuro é o compromisso mundial de enfrentar em conjunto esses desafios comuns e exige um sistema multilateral mais inclusivo, eficaz e adequado para dar seguimento a esse compromisso.
A iniciativa ONU80 é sobre nos equiparmos com as ferramentas certas para realizar o trabalho — e tornar nossa Organização mais coerente, mais eficaz e mais preparada para concretizar a visão estabelecida pelos Estados-membros.
Já estamos obtendo progressos significativos na concretização dos compromissos do Pacto:
- Isso inclui o avanço dos esforços globais em relação à governança da inteligência artificial com o lançamento do Painel Científico Internacional Independente sobre IA e do Diálogo Global sobre Governança da IA;
- A redefinição de indicadores de progresso para além do PIB, com o apoio do Grupo de Peritos de Alto Nível;
- O combate ao sobreendividamento global, o reforço da cooperação fiscal global e o lançamento da plataforma dos mutuários, conforme delineado no Compromisso de Sevilha, que também reafirmou a necessidade de reformar a arquitetura financeira global;
- E estabelecer vínculos sistemáticos com instituições financeiras internacionais por meio da cúpula bienal — para ajudar a alinhar o financiamento global com a Agenda 2030 e garantir um sistema financeiro mais inclusivo, ágil e acessível aos países em desenvolvimento.
- O Pacto também apela ao fortalecimento de nossa abordagem à paz e à segurança por meio da Nova Agenda para a Paz, incluindo a revisão das operações de paz da ONU, a ser divulgada em breve — e foi a força motriz por trás do meu relatório do ano passado sobre como o aumento dos gastos militares globais está desacelerando o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
- O Pacto para o Futuro também inclui medidas adicionais para promover o engajamento dos jovens, desenvolvendo princípios fundamentais para sua participação significativa;
- Aprimorar nossas capacidades em inovação, dados e transformação digital para construir a ONU do futuro;
- E reforçar a coordenação em direitos humanos, incluindo um envolvimento mais profundo com autoridades locais, sociedade civil, academia e outros parceiros.
Todo esse trabalho é apoiado por um sistema robusto de transparência e prestação de contas — incluindo um mecanismo de acompanhamento dedicado e um painel público — para monitorar o progresso, definir marcos claros e garantir uma implementação disciplinada.
Excelências,
O Pacto para o Futuro e a ONU80 são componentes interligados de uma única estratégia de renovação.
Juntos, foram concebidos para renovar a visão e os mecanismos do multilateralismo, de modo que a ONU possa continuar a agir com credibilidade e impacto, hoje e para as gerações futuras.
Gostaria de destacar cinco pontos cruciais de convergência:
Primeiro, tanto o Pacto quanto a ONU80 buscam fortalecer os três pilares do mandato da ONU e as conexões entre eles.
No que diz respeito à paz e à segurança, ambos enfatizam a necessidade de prevenção e resiliência.
O Pacto baseia-se na ideia de que o sistema internacional deve antecipar-se aos riscos, sejam eles relacionados a conflitos, clima, desigualdade ou disrupção tecnológica.
A ONU80 aplica essa lógica à reforma institucional, passando de respostas fragmentadas para abordagens mais integradas, coordenadas e preventivas.
No que diz respeito ao desenvolvimento sustentável, ambos reconhecem a necessidade de acelerar os esforços na reta final até 2030.
O Pacto foi explicitamente concebido para impulsionar os ODS.
A ONU80 reconhece que a implementação do desenvolvimento requer não apenas mais compromisso e mais financiamento, mas também um sistema de desenvolvimento da ONU mais integrado, com apoio mais forte a nível nacional, coordenação regional mais estreita, melhor acesso a conhecimentos especializados, menos duplicação e ajustes estruturais adequados.
Ambos buscam também promover um sistema humanitário mais eficaz, baseado em princípios e sustentável.
O Pacto define uma visão mais ambiciosa sobre como a comunidade internacional responde ao sofrimento humano.
A ONU80 visa garantir que o sistema humanitário da ONU seja mais ágil, enxuto e responsável perante as pessoas a quem serve — com um Novo Pacto Humanitário que especifique formas tangíveis de ser mais coordenado, mais baseado em dados, mais eficaz e com melhor custo-benefício, com serviços comuns aprimorados, incluindo cadeias de abastecimento; e mais conectado à resiliência e recuperação de longo prazo.
No que diz respeito aos direitos humanos, ambos renovam o compromisso de colocar os direitos humanos no centro da prevenção, da construção da confiança e da paz sustentável.
O Pacto reafirma que os direitos humanos constituem um pilar transversal de todo o nosso trabalho e ressalta a necessidade de proteger o espaço cívico, fortalecer a prestação de contas e garantir que os grupos marginalizados possam participar de forma significativa na tomada de decisões.
A ONU80 dá continuidade a isso buscando integrar melhor os direitos humanos em todo o trabalho da ONU, inclusive por meio do recém-criado Grupo de Direitos Humanos, sob a liderança do Alto Comissário para os Direitos Humanos.
O segundo ponto de convergência é que ambos se baseiam em um compromisso comum com um multilateralismo inclusivo e voltado para o futuro, que preste contas à próxima geração.
O Pacto integra explicitamente os interesses das gerações futuras na tomada de decisões atual — por meio da Declaração sobre as Gerações Futuras — e reconhece que as estruturas de governança atuais devem evoluir para lidar com os riscos de longo prazo.
A ONU80 exorta a Organização a pensar e agir com um horizonte temporal mais amplo: a ser mais ágil, mais preparada para o futuro e mais conectada com a juventude, a sociedade civil e outras partes interessadas.
Em terceiro lugar, ambos estão totalmente alinhados à transformação digital, aos dados e à inovação responsável.
O Pacto define a governança digital como uma prioridade multilateral.
O Pacto Digital Global, como anexo ao Pacto, reconhece que a cooperação digital é agora vital para o futuro do multilateralismo.
A ONU80 traduz esse reconhecimento político em mudança organizacional, com uma Plataforma Aceleradora de Tecnologia conjunta, infraestrutura digital compartilhada e um Banco de Dados Comum do Sistema da ONU para que nossos dados públicos e estatísticas possam se conectar entre entidades e pilares, gerando percepções mais sólidas — tudo isso fundamentado em nossa agenda ONU 2.0.
Em quarto lugar, ambos abordam a necessidade urgente de melhorar o financiamento e a relação custo-benefício.
O Pacto se compromete a mobilizar muito mais recursos públicos e privados para o desenvolvimento sustentável, incluindo a reforma das instituições financeiras internacionais, a melhoria da sustentabilidade da dívida e a redução das lacunas de financiamento.
A ONU80 tem um foco claro na construção do modelo organizacional e de financiamento necessário para sustentar esse nível de ambição, promovendo o financiamento comum e básico, serviços compartilhados e estruturas de apoio harmonizadas.
O quinto ponto de convergência é como ambos reconhecem que é no nível nacional que o impacto ocorre — e onde a credibilidade é conquistada ou perdida.
O Pacto é, em última análise, uma promessa a “nós, os povos” em países e comunidades ao redor do mundo.
A ONU80 enfatiza fortemente a necessidade de presenças e capacidades da ONU mais bem coordenadas e apoiadas.
Isso significa Coordenadores Residentes com autoridade mais clara, equipes nacionais que operem como um todo e sistemas que reduzam a duplicação e os custos de transação e potencializem especialização.
Excelências,
O multilateralismo deve ir além de inspirar e fazer promessas.
Ele deve produzir resultados — pois resultados geram confiança.
Confiança de que a ação multilateral pode oferecer soluções em grande escala e com rapidez.
Confiança de que as nações podem se unir e agir com um propósito comum.
E confiança de que, juntos, podemos fazer uma diferença real na vida das pessoas.
Façamos a nossa parte para construir essa confiança — por uma Organização das Nações Unidas mais forte e um futuro melhor para todas as pessoas.
O Pacto para o Futuro e a ONU80 representam dois pilares de uma visão e estratégia compartilhadas para alcançar esses objetivos. Visão e estratégia baseadas na Carta das Nações Unidas e no respeito ao equilíbrio entre os três pilares.
Obrigado.
Para saber mais, acesse as páginas da ONU Brasil sobre o Pacto para o Futuro e iniciativa ONU80.