Guterres: “As pessoas precisam ver o multilateralismo em ação”
Discurso do secretário-geral António Guterres sobre “A Cooperação entre o Japão e a ONU, a EXPO 2025 e o Futuro do Multilateralismo”, em 18 de maio, em Tóquio.
Honrável Ministro,
Excelências, senhoras e senhores,
É um prazer estar aqui na Universidade das Nações Unidas.
Agradeço ao Governo e ao povo do Japão pela calorosa recepção.
Estou em Tóquio para presidir uma reunião dos chefes das entidades das Nações Unidas.
É a primeira vez que tal encontro é realizado na Ásia.
E é apropriado que seja no Japão.
Ao longo dos anos – desde o meu mandato como secretário-geral e, antes disso, como Alto Comissário para os Refugiados – testemunhei em primeira mão o forte compromisso do povo japonês com os objetivos e valores das Nações Unidas.
E este é, para mim, um momento muito emocionante. Ao longo de 20 anos de uma cooperação extremamente gratificante no Japão, esta poderá ser uma das minhas últimas intervenções no seu país; até dezembro, muitas coisas podem acontecer [por isso] não disse que esta seria a minha última intervenção neste país.
Visitei o Japão mais de 20 vezes, tanto na função de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e como secretário-geral.
Sempre encontrei cooperação estratégica e apoio que beneficiaram milhões de pessoas em todo o mundo, além do calor de uma verdadeira amizade. Arigatō.
Tive o orgulho de ser o primeiro secretário-geral a participar das cerimônias pela paz tanto em Nagasaki quanto em Hiroshima.
Nunca esquecerei a coragem e a dedicação das pessoas sobreviventes da bomba atômica — as hibakusha.
Sua mensagem de paz continua a inspirar a mim e a tantas outras pessoas em todo o mundo.
Um mundo sem armas nucleares é uma meta profundamente gravada no DNA tanto do Japão quanto das Nações Unidas.
Quando o Japão foi atingido pelo devastador terremoto e tsunami em 2011, as Nações Unidas fizeram o possível para apoiar os esforços de resposta e recuperação do país.
O Japão transformou essa experiência em liderança global na redução do risco de desastres.
Ao longo dos anos e em diversas questões, a ONU se beneficiou enormemente da generosidade e do compromisso do Japão com o sistema multilateral.
E o Japão aproveitou com sucesso seu papel nas Nações Unidas para ampliar sua influência diplomática e construir prosperidade econômica e paz por meio de um sistema global estável e cooperativo.
Por todas essas razões e muito mais, tenho orgulho de comemorar com vocês a parceria de setenta anos entre o Japão e as Nações Unidas.
Homenageamos os seus muitos anos como um grande defensor do multilateralismo:
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Da manutenção da paz à consolidação da paz e à segurança humana.
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Da assistência humanitária ao desenvolvimento sustentável.
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Do desarmamento à ação climática.
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Da educação à cobertura universal de saúde.
Este aniversário é um momento para olhar para trás com gratidão — e para o futuro com determinação renovada.
A necessidade do multilateralismo nunca foi tão grande.
Caros amigos,
Nosso mundo está turbulento:
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Vemos as divisões geopolíticas se aprofundando.
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Conflitos se alastrando.
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As desigualdades aumentando.
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O caos climático acelerando.
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E as novas tecnologias avançando mais rápido do que nossa capacidade de governá-las.
E, no entanto, tenho esperança.
As Nações Unidas foram criadas precisamente para momentos como este.
Ao longo de oito décadas, promovendo os direitos humanos e o direito internacional.
Entregando ajuda humanitária que salvou vidas.
Reduzindo a pobreza e unindo os países em torno de objetivos comuns.
E evitando uma terceira guerra mundial.
É claro que nossas instituições devem sempre se adaptar.
O Pacto para o Futuro é um compromisso dos Estados-membros com um multilateralismo mais eficaz, inclusivo e interconectado.
Nossa Iniciativa ONU80 foi criada para garantir que as Nações Unidas estejam preparadas para cumprir essa missão.
O Japão compreende profundamente tudo isso.
O conceito de segurança humana — que o Japão há muito defende — nos lembra que o parâmetro para avaliar nosso trabalho deve estar na vida das pessoas:
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Na segurança e na saúde delas.
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Na capacidade delas de viver com dignidade.
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No acesso delas a alimentos, água e saneamento.
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Nas oportunidades que lhes permitam construir um futuro melhor para si mesmas e para suas comunidades.
Esse espírito de trabalho conjunto em favor do avanço da humanidade ficou bem evidente na Expo 2025 e no Pavilhão da ONU em Osaka.
Tive a honra de visitar a Expo no Dia Especial das Nações Unidas.
O Pavilhão das Nações Unidas tinha como tema “Unidos por um Futuro Melhor”.
Ele serviu como uma janela para o trabalho diário do Sistema das Nações Unidas – em favor da paz, dos direitos humanos, do desenvolvimento sustentável e da ação climática.
Foi também um exemplo extraordinário da ONU atuando como uma família, unindo forças com o Japão e outros parceiros.
Essas lições se estendem muito além da Expo.
Primeiro, as pessoas precisam ver o multilateralismo em ação.
Quando o trabalho das Nações Unidas se torna tangível — quando as pessoas conseguem relacioná-lo com suas próprias vidas e comunidades — a confiança aumenta.
Segundo, a comunicação importa.
Numa época em que a desinformação e o cinismo estão se espalhando, devemos contar a história do multilateralismo com clareza, honestidade e humildade.
Terceiro, parcerias são indispensáveis.
A Expo 2025 demonstrou o poder da colaboração entre governos, o sistema da ONU, autoridades locais, o meio acadêmico, o setor privado, a sociedade civil e os jovens.
E quarto, o futuro precisa ser criado em conjunto.
E, mais uma vez, a Expo 2025 nos desafiou a imaginar o tipo de futuro que desejamos.
Essa questão está no cerne do nosso trabalho hoje:
O futuro do multilateralismo será garantido pela coragem, pela reforma e pela concretização.
Exigirá instituições que reflitam o mundo de hoje, não o mundo de oitenta anos atrás.
Exigirá financiamento à altura das ambições.
E exigirá esforços de paz baseados na prevenção, na diplomacia e nos direitos humanos.
Exigirá justiça climática e uma aceleração na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Exigirá uma governança digital e tecnológica que coloque a humanidade em primeiro lugar.
Exigirá que as pessoas jovens não sejam meras espectadoras, mas sim arquitetas do futuro.
E exigirá a reforma das instituições globais — incluindo o Conselho de Segurança da ONU e a arquitetura financeira global.
Isso é fundamental para aumentar a eficácia e a legitimidade na abordagem do mundo complexo e multipolar de hoje.
Excelências,
Caros amigos,
A parceria contínua do Japão permanecerá essencial.
O Japão tem muito a contribuir para o próximo capítulo do multilateralismo – como construtor de pontes… como defensor da Carta… e como defensor da segurança humana.
Há 70 anos, temos estado lado a lado para garantir um mundo melhor, mais saudável, mais justo e mais pacífico para todas as pessoas.
Hoje, ao celebrarmos setenta anos de cooperação entre o Japão e a ONU, renovemos nosso compromisso comum.
Fortalecemos um multilateralismo que conquiste confiança — por meio de ações, solidariedade e resultados que as pessoas possam ver, sentir e nos quais possam acreditar.
E levemos adiante o espírito da Expo 2025: Unidos por um futuro melhor.
Arigatō.